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sábado, 28 de julho de 2012

Conceitos de Perfeição

Nasce o ideal da nossa consciência da imperfeição da vida. Tantos, portanto, serão os ideais possíveis, quantos forem os modos por que é possível ter a vida por imperfeita. A cada modo de a ter por imperfeita corresponderá, por contraste e semelhança, um conceito de perfeição. É a esse conceito de perfeição que se dá o nome de ideal. 
Por muitas que pareça que devem ser as maneiras por que se pode ter a vida por imperfeita, elas são, fundamentalmente, apenas três. Com efeito, há só três conceitos possíveis de imperfeição, e, portanto, da perfeição que se lhe opõe. 

Podemos ter qualquer coisa por imperfeita simplesmente por ela ser imperfeita; é a imperfeição que imputamos a um artefacto mal fabricado. Podemos, por contra, tê-la por imperfeita porque a imperfeição resida, não na realização, senão na essência. Será quantitativa ou qualitativa a diferença entre a essência dessa coisa imperfeita e a essência do que consideramos perfeição; quantitativa como se disséssemos da noite, comparando-a ao dia, que é imperfeita porque é menos clara; qualitativa como se, no mesmo caso, disséssemos que a noite é imperfeita porque é o contrário do dia.

Pelo primeiro destes critérios, aplicando-o ao conjunto da vida, tê-la-emos por imperfeita por nos parecer que falece naquilo mesmo por que se define, naquilo mesmo que parece que deveria ser. Assim, todo o corpo é imperfeito porque não é um corpo perfeito; toda a vida vida imperfeita porque, durando, não dura sempre; todo o prazer imperfeito porque o envelhece o cansaço; toda a compreensão imperfeita porque, quanto mais se expande, em maiores fronteiras confina com o incompreensível que a cerca. Quem sente desta maneira a imperfeição da vida, quem assim a compara com ela própria, tendo-a por infiel à sua própria natureza, força é que sinta como ideal um conceito de perfeição que se apoie na mesma vida. Este ideal de perfeição é o ideal helénico, ou o que pode assim designar-se, por terem sido os gregos antigos quem mais distintivamente o teve, quem, em verdade, o formou, de quem, por certo, ele foi herdado pelas civilizações posteriores. 

Pelo segundo destes critérios teremos a vida por imperfeita por uma deficiência quantitativa da sua essência, ou, em outras palavras, por a considerarmos inferior - inferior a qualquer coisa, ou a qualquer princípio, em o qual, em relação a ela, resida a superioridade. É esta inferioridade essencial que, neste critério, dá às coisas a imperfeição que elas mostram. Porque é vil e terreno, o corpo morre; não dura o prazer, porque é do corpo, e por isso vil, e a essência do que é vil é não poder durar; desaparece a juventude porque é um episódio desta vida passageira; murcha a beleza que vemos porque cresce na haste emporal. Só Deus, e a alma, que ele criou e se lhe assemelha, são a perfeição e a verdadeira vida. Este é o ideal que poderemos chamar cristão, não só porque é o cristianismo a religião que mais perfeitamente o definiu, mas também porque é aquela que mais perfeitamente o definiu para nós. 

Pelo último dos mesmos critérios teremos a vida por imperfeita por a julgarmos consubstanciada com a imperfeição, isto é, não existente, porque a não existência, sendo a negação suprema, é a absoluta imperfeição. Teremos a vida por ilusória; não já imperfeita, como para os gregos, por não ser perfeita; não já imperfeita, como para os cristãos, por ser vil e material; senão imperfeita por não existir, por ser mera aparência, absolutamente aparência, vil portanto, se vil, não tanto com a vileza do que é vil, quanto com a vileza do que é falso. É deste conceito de imperfeição que nasce aquela forma de ideal que nos é mais familiarmente conhecida no budismo, embora as suas manifestações houvessem surgido na Índia muito antes daquele sistema místico, filhos ambos, ele como elas, do mesmo substrato metafísico. É certo que este ideal aparece, com formas e aplicações diversas, nos espiritualistas simbólicos, ou ocultistas, de quase todas as confissões. Como, porém, foi na Índia que as manifestações formais dele distintivamente apareceram, podemos ser imprecisos, porém não seremos inexactos, se dermos a este ideal, por conveniência, o nome de ideal índio. 

Fernando Pessoa, in 'Textos de Crítica e de Intervenção'
Tema(s): Perfeição  Vida http://www.citador.pt/textos/conceitos-de-perfeicao-fernando-pessoa

Resuma a ideia central em cinco linhas.

A Fragilidade dos ValoresTodas as coisas «boas» foram noutro tempo más; todo o pecado original veio a ser virtude original. O casamento, por exemplo, era tido como um atentado contra a sociedade e pagava-se uma multa, por ter tido a imprudência de se apropriar de uma mulher (ainda hoje no Cambodja o sacerdote, guarda dos velhos costumes, conserva o jus primae noctis). Os sentimentos doces, benévolos, conciliadores, compassivos, mais tarde vieram a ser os «valores por excelência»; por muito tempo se atraiu o desprezo e se envergonhava cada qual da brandura, como agora da dureza. 
A submissão ao direito: oh! que revolução de consciência em todas as raças aristocráticas quando tiveram de renunciar à vingança para se submeterem ao direito! O «direito» foi por muito tempo um vetitum, uma inovação, um crime; foi instituído com violência e opróbio.

Cada passo que o homem deu sobre a Terra custou-lhe muitos suplícios intelectuais e corporais; tudo passou adiante e atrasou todo o movimento, em troca teve inumeráveis mártires; por estranho que isto hoje nos pareça, já o demonstrei na Aurora, aforismo 18: «Nada custou mais caro do que esta migalha de razão e de liberdade, que hoje nos envaidece». Esta mesma vaidade nos impede de considerar os períodos imensos da «moralização dos costumes» que precederam a história capital e foram a verdadeira história, a história capital e decisiva que fixou o carácter da humanidade. Então a dor passava por virtude, a vingança por virtude, a renúncia da razão por virtude, e o bem-estar passivo por perigo, o desejo de saber por perigo, a paz por perigo, a misericórdia por opróbio, o trabalho por vergonha, a demência por coisa divina, a conversão por imoralidade e a corrupção por coisa excelente. 

Friedrich Nietzsche, in 'A Genealogia da Moral'
http://www.citador.pt/textos/a-fragilidade-dos-valores-friedrich-wilhelm-nietzsche

sábado, 9 de junho de 2012

http://richardjakubaszko.blogspot.com.br/

IMPRENSA ouviu especialistas e mostra quais termos mais induzem jornalistas ao erro Guilherme Sardas* |


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Há quem diga que o jornalista é um expert em generalidades. Outros ressaltam sua habilidade de falar de muitos assuntos, sem dominar nenhum. Mesmo que os rótulos não passem de meras generalizações, parecem lembrar algo sempre relevante: que entre o jornalista e a informação precisa e correta há sempre uma distância que só ele pode (e deve) percorrer sempre.

Nessa travessia diária, falhar na precisão de informações ou conceitos é sempre um risco real. Por isso, IMPRENSA pediu a jornalistas de cinco editorias – tecnologia, ambiental, direito, ciência e economia – que elencassem algumas dessas expressões que, como verdadeiras “cascas de banana”, estão sempre à espreita para trair passos pouco cautelosos. Veja abaixo as principais falhas apontadas – e confira ainda mais exemplos no Portal IMPRENSA.

TECNOLOGIA
Hacker x Cracker
“É uma daquelas simplificações que a imprensa adota e pronto. Nas origens, o termo hacker descrevia alguém que gosta de fuçar, de entender profundamente algo ligado à mecânica, como engenharia ou carros. Com a internet, o termo ficou associado a quem faz coisas erradas na rede. Esse cara “do mal”, que quebra dados e invade contas e que às vezes utiliza o conhecimento do hacker, é na verdade o cracker”.

Renato Rodrigues, editor do IDG Now!

Vírus x Cavalos de Troia
Os chamados “cavalos de Troia” são programas que, geralmente, chegam camuflados de notícias ou vídeos, mas que servem para capturar dados, como senhas de banco. Tecnicamente não são vírus, pois não têm a capacidade de se disseminar sozinhos.

Defacement x Invasão de sistema
O defacement, espécie de “pichação virtual” na home de sites, geralmente assinado pelo cracker, não implica necessariamente em invasão de sistema. “O cracker pode ter entrado só na máquina que hospedava a ‘capa’ do site”, explica o jornalista Daniel dos Santos.

Nerd x Geek
Enquanto os geeks incorporaram o amor à tecnologia ao estilo pessoal, e não largam seus aparatos tecnológicos como iPod e iPhone, o nerd é o modelo mais “clássico”: adora estudar, mas não se vale, necessariamente, da moda ou das redes para demarcar seu estilo de vida.

Mega
Usar o prefixo “Mega” sem o complemento de uma unidade referente pode gerar confusão entre os leigos, já que Megabytes é uma unidade de armazenamento de dados (como a memória de um HD) e Megabits por segundo é usado, por exemplo, para velocidade de uma conexão de internet.

Fontes: Renato Rodrigues (editor do IDG Now!) e Daniel dos Santos (colaborador do Uol Tecnologia).

AMBIENTAL
Sustentabilidade
“A palavra em si não tem sentido sozinha, além de ter virado sinônimo de quase tudo. O conceito vem da expressão popularizada pelo “RelatórioBrundtland” , no final da década de 1980, que significa social, ambiental e economicamente sustentável. Se um produto é tachado de sustentável, é preciso dizer o porquê: se reduz consumo de matérias-primas, se é reciclável, se reduz o consumo de energia na produção ou no uso, se gera menos resíduos na sua produção ou no descarte etc.”
Alexandre Spatuzza, editor da revista Sustentabilidade

Energia limpa
Para Jean Remy, editor de ciências ambientais da revista Ciência Hoje, falar em “energia limpa” é alimentar a ilusão de algo que não existe. “É claro que energias como a solar, eólica e hidroelétrica são menos sujas que carvão e petróleo, mas também têm impacto ambiental”.

Reciclagem
Tecnicamente, reciclagem é o processo fabril que transforma um produto em outro, a partir do mesmo material. Práticas como a coleta seletiva (separação de materiais) e reúso de materiais (ex.: uso de uma garrafa PET como vaso de flor) não são reciclagem.

Efeito estufa: um vilão?
Apresentar o efeito estufa como um “vilão ambiental” é ignorar seu significado. “É ele que mantém a temperatura da Terra em condições propícias para a vida. É o aumento significativo da emissão de gases de efeito estufa, provocados pela ação humana, que altera o estado ideal, provocando um aquecimento que pode impactar o planeta”, explica o jornalista Wilson da Costa Bueno.

Desmatamento
Desmatamento não implica, necessariamente, em degradação ambiental indiscriminada. Há o desmatamento legal – autorizado por órgão competente e submetido a condições que diminuem o impacto ambiental – e o ilegal – geralmente caracterizado pela ação rápida e predatória.

Fontes: Alexandre Spatuzza (revista Sustentabilidade), Jean Remy (revista Ciência Hoje), Wilson da Costa Bueno (Comtexto Comunicação e Pesquisa) e Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo.

DIREITO

Furto x Roubo
“O crime de furto está enquadrado no art. 155 do Código Penal: “subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel.” Pena de 1 a 4 anos de cadeia. O crime de roubo está enquadrado no art. 157 do mesmo código: “subtrair coisa alheia móvel, para si ou para outrem, mediante grave ameaça ou violência à pessoa...” Pena de 4 a 10 anos de cadeia. São crimes completamente diferentes: no roubo, tem que haver violência ou grave ameaça à pessoa e, no furto, não há violência, nem grave ameaça.”
Edson Flosi, jornalista e advogado

Prova x Indício
Falar em provas antes do início do processo judicial é um equívoco. Na fase de denúncias e investigação, o que existem são indícios, situações que podem tentar comprovar que o cidadão cometeu o crime. Só o juiz pode determinar a existência de uma prova.

Crime doloso x Crime culposo
É simplificadora a regra de que “doloso” pressupõe intenção de cometer o crime, enquanto “culposo” não. Quando se assume o risco de matar, mesmo não havendo intenção, pode ocorrer o dolo.

Procurador do Estado x Procurador de Justiça
O primeiro é advogado do Estado e defende ou representa o Estado nos casos judiciais em que o Estado é parte, como autor ou réu. O segundo é o promotor de Justiça que foi promovido ao cargo de procurador de Justiça, ou seja, uma promoção da primeira à segunda instância. Usar simplesmente a expressão “procurador” não só confunde as duas funções, como insinua o sentido genérico do termo, que é o de qualquer pessoa que representa outro em algum negócio, mediante autorização escrita do representado.

Tribunal do Júri

Nos quatro casos em que o julgamento é feito pelo Tribunal do Júri – homicídio, infanticídio, aborto e induzimento ao suicídio –, alguns usos comuns são equivocados: como falar que “o juiz condenou o réu” (neste caso, quem condena é o júri) ou que “os jurados decidiram por dez anos de cadeia” (o juiz é quem aplica a pena).

Fontes: Edson Flosi e Alessandro Cristo (Conjur).

CIÊNCIA

Calorias x Quilocalorias

“Nas embalagens de alimento, as calorias aparecem com um ‘K’ na frente, de quilocalorias (Kcal). Trocar quilocalorias por calorias é uma simplificação que muita gente faz e não sabe. Minha impressão é que tiraram o quilo, pois, se você disser que uma paçoquinha tem 100 mil calorias, a pessoa assusta. Ou seja, criou-se uma nova medida, em que cada caloria popular equivale a 1.000 calorias [da ciência].”
Cássio Leite Vieira, editor da revista Ciência Hoje

Ano-luz
É uma medida de distância, mas que pelo fato de conter “ano” no nome muitos acham que é uma medida de tempo. Na verdade, “ano-luz” é a distância que a luz percorre em um ano, mais ou menos 9,5 trilhões de quilômetros. Dizer que “passou um ano-luz” está errado.

Código genético x Material genético
Chamar o DNA de código genético é um erro. O correto é falar em material genético. O código são as bases nitrogenadas, as famosas letras que compõem o DNA: G (guanina), C (citosina), A (adenina) e T (timina). O código genético é, portanto, parte do material genético.

Diet x Light
Diet é um alimento isento de algum nutriente, como glúten, carboidrato, gordura ou proteína. Não acarreta necessariamente redução calórica, focando dietas específicas, como para os diabéticos. Já o light deve ter redução mínima de 25% em determinado nutriente ou calorias, comparado ao mesmo alimento em sua fórmula convencional, estando mais relacionado a dietas de redução calórica.

Peso x Massa
Na linguagem científica é um erro considerar os conceitos de peso e massa como sinônimos. O peso se altera em função do lugar onde um corpo está; a massa, não. Alguém que pesa 70 kg na Terra (70 Kgf), na Lua, pesará cerca de 11,6 Kgf, mas sua massa permanecerá 70 kg. Isso porque a Lua tem gravidade bem menor que a Terra.

Fontes: Cássio Leite Vieira (revista Ciência Hoje) e Wilson da Costa Bueno (Comtexto Comunicação e Pesquisa).

ECONOMIA

Percentagem x Ponto percentual
“Isso rende confusão especialmente em matérias sobre PIB, crédito e inflação. No caso do crédito, por exemplo, é comum ler que o saldo de financiamentos em relação ao PIB cresceu 1% em um mês, quando na verdade, este número aumentou 1 ponto percentual (de 48% para 49% do PIB). Parece algo básico, mas na verdade o próprio relatório do Banco Central induz ao erro ao colocar a legenda ‘em %’ ”.

Renato Carvalho, editor do DCI

Especulação
Especular é estudar ou apostar em uma empresa ou fato que vai mudar o rumo das cotações no mercado, com base em indicadores macroeconômicos ou em números de balanços das empresas. Ou seja, um jogo limpo. A expressão ganhou um tom pejorativo para designar aquela “raposa de mercado”, que ganha dinheiro através de informações privilegiadas ou cargos em empresas, o que é contras as regras, acarretando multas pela
Comissão de Valores Imobiliários (CVM).

Lucro contábil x Lucro recorrente
O lucro contábil é aquele “que vale”, que mostra quanto a empresa efetivamente lucrou em determinado período. O recorrente mostra um lucro “ajustado”, que não leva em conta os chamados “eventos extraordinários”, como o pagamento de parcela por uma aquisição recentemente fechada ou créditos tributários.

Duas vezes maior x Dobro
A questão é puramente matemática. Dizer, por exemplo, que uma taxa é duas vezes maior que outra não é o mesmo que dizer que ela é o dobro da outra. Quando um número é o dobro do outro, ele é uma vez maior.

Fusão x Aquisição
Uma aquisição é a compra de uma empresa pela outra, sendo que ambas preservam suas identidades jurídicas, diferentemente do que ocorre na fusão, em que duas ou mais empresas independentes do ponto de vista jurídico passam a formar uma única empresa em termos de direitos e obrigações.
Fonte: Diário Comércio Indústria & Serviços (DCI); José Roberto Caetano (revista Exame).

*Com Denise Bonfim.

Matéria publicada na edição de junho (279) da Revista IMPRENSA
http://portalimprensa.uol.com.br/noticias/brasil/50386/imprensa+ouviu+especialistas+e+mostra+quais+termos+mais+induzem+jornalistas+ao+erro