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Há quem diga que o
jornalista é um expert em generalidades. Outros ressaltam sua habilidade de
falar de muitos assuntos, sem dominar nenhum. Mesmo que os rótulos não passem
de meras generalizações, parecem lembrar algo sempre relevante: que entre o jornalista e a
informação precisa e correta há sempre uma distância que só ele pode (e deve)
percorrer sempre.
Nessa travessia
diária, falhar na precisão de informações ou conceitos é sempre um risco real. Por isso,
IMPRENSA pediu a jornalistas de cinco editorias – tecnologia, ambiental,
direito, ciência e economia – que elencassem algumas dessas expressões que,
como verdadeiras “cascas de banana”, estão sempre à espreita para trair passos
pouco cautelosos. Veja abaixo as principais falhas apontadas – e confira ainda
mais exemplos no Portal IMPRENSA.
TECNOLOGIA
Hacker x Cracker
“É uma daquelas
simplificações que a imprensa adota e pronto. Nas origens, o termo hacker
descrevia alguém que gosta de fuçar, de entender profundamente algo ligado à
mecânica, como engenharia ou carros. Com a internet, o termo ficou associado a
quem faz coisas erradas na rede. Esse cara “do mal”, que quebra dados e invade
contas e que às vezes utiliza o
conhecimento do hacker, é na verdade o cracker”.
Renato Rodrigues,
editor do IDG Now!
Vírus x Cavalos de Troia
Os chamados “cavalos
de Troia” são programas que, geralmente, chegam camuflados de notícias ou
vídeos, mas que servem para capturar dados, como senhas de banco. Tecnicamente
não são vírus, pois não têm a capacidade de se disseminar sozinhos.
Defacement x Invasão de sistema
O defacement, espécie
de “pichação virtual” na home de sites, geralmente assinado pelo cracker, não
implica necessariamente em invasão de sistema. “O cracker pode ter entrado só
na máquina que hospedava a ‘capa’ do site”, explica o jornalista Daniel dos
Santos.
Nerd x Geek
Enquanto os geeks
incorporaram o amor à tecnologia ao estilo pessoal, e não largam seus aparatos
tecnológicos como iPod e iPhone, o nerd é o modelo mais “clássico”: adora
estudar, mas não se vale, necessariamente, da moda ou das redes para demarcar
seu estilo de vida.
Mega
Usar o prefixo “Mega”
sem o complemento de uma unidade referente pode gerar confusão entre os leigos,
já que Megabytes é uma unidade de armazenamento de dados (como a memória de um
HD) e Megabits por segundo é usado, por exemplo, para velocidade de uma conexão
de internet.
Fontes: Renato Rodrigues (editor do IDG Now!) e Daniel dos Santos (colaborador
do Uol Tecnologia).
AMBIENTAL
Sustentabilidade
“A palavra em si não
tem sentido sozinha, além de ter virado sinônimo de quase tudo. O conceito vem
da expressão popularizada pelo “RelatórioBrundtland” , no final da década de
1980, que significa social, ambiental e economicamente sustentável. Se um produto é tachado de
sustentável, é preciso dizer o porquê: se reduz consumo de matérias-primas, se
é reciclável, se reduz o consumo de energia na produção ou no uso, se gera
menos resíduos na sua produção ou no descarte etc.”
Alexandre Spatuzza,
editor da revista Sustentabilidade
Energia limpa
Para Jean Remy,
editor de ciências ambientais da revista Ciência Hoje, falar em “energia limpa”
é alimentar a ilusão de algo que não existe. “É claro que energias como a
solar, eólica e hidroelétrica são menos sujas que carvão e petróleo, mas também
têm impacto ambiental”.
Reciclagem
Tecnicamente,
reciclagem é o processo fabril que transforma um produto em outro, a partir do
mesmo material. Práticas como a coleta seletiva (separação de materiais) e
reúso de materiais (ex.: uso de uma garrafa PET como vaso de flor) não são
reciclagem.
Efeito estufa: um vilão?
Apresentar o efeito
estufa como um “vilão ambiental” é ignorar seu significado. “É ele que mantém a
temperatura da Terra em condições propícias para a vida. É o aumento
significativo da emissão de gases de efeito estufa, provocados pela ação
humana, que altera o estado ideal, provocando um aquecimento que pode impactar
o planeta”, explica o jornalista Wilson da Costa Bueno.
Desmatamento
Desmatamento não
implica, necessariamente, em degradação ambiental indiscriminada. Há o
desmatamento legal – autorizado por órgão competente e submetido a condições
que diminuem o impacto ambiental – e o ilegal – geralmente caracterizado pela
ação rápida e predatória.
Fontes: Alexandre
Spatuzza (revista Sustentabilidade), Jean Remy (revista Ciência Hoje), Wilson
da Costa Bueno (Comtexto Comunicação e Pesquisa) e Secretaria do Meio Ambiente
do Estado de São Paulo.
DIREITO
Furto x Roubo
“O crime de furto
está enquadrado no art. 155 do Código Penal: “subtrair, para si ou para outrem,
coisa alheia móvel.” Pena de 1 a 4 anos de cadeia. O crime de roubo está
enquadrado no art. 157 do mesmo código: “subtrair coisa alheia móvel, para si
ou para outrem, mediante grave ameaça ou violência à pessoa...” Pena de 4 a 10
anos de cadeia. São crimes completamente diferentes: no roubo, tem que haver
violência ou grave ameaça à pessoa e, no furto, não há violência, nem grave
ameaça.”
Edson Flosi,
jornalista e advogado
Prova x Indício
Falar em provas antes
do início do processo judicial é um equívoco. Na fase de denúncias e
investigação, o que existem são indícios, situações que podem tentar comprovar
que o cidadão cometeu o crime. Só o juiz pode determinar a existência de uma
prova.
Crime doloso x Crime culposo
É simplificadora a
regra de que “doloso” pressupõe intenção de cometer o crime, enquanto “culposo”
não. Quando se assume o risco de matar, mesmo não havendo intenção, pode
ocorrer o dolo.
Procurador do Estado x Procurador de
Justiça
O primeiro é advogado
do Estado e defende ou representa o Estado nos casos judiciais em que o Estado
é parte, como autor ou réu. O segundo é o promotor de Justiça que foi promovido
ao cargo de procurador de Justiça, ou seja, uma promoção da primeira à segunda
instância. Usar simplesmente a expressão “procurador” não só confunde as duas
funções, como insinua o sentido genérico do termo, que é o de qualquer pessoa
que representa outro em algum negócio, mediante autorização escrita do
representado.
Tribunal do Júri
Nos quatro casos em
que o julgamento é feito pelo Tribunal do Júri – homicídio, infanticídio,
aborto e induzimento ao suicídio –, alguns usos comuns são equivocados: como
falar que “o juiz condenou o réu” (neste caso, quem condena é o júri) ou que
“os jurados decidiram por dez anos de cadeia” (o juiz é quem aplica a pena).
Fontes: Edson Flosi e
Alessandro Cristo (Conjur).
CIÊNCIA
Calorias x Quilocalorias
“Nas embalagens de
alimento, as calorias aparecem com um ‘K’ na frente, de quilocalorias (Kcal).
Trocar quilocalorias por calorias é uma simplificação que muita gente faz e não
sabe. Minha impressão é que tiraram o quilo, pois, se você disser que uma
paçoquinha tem 100 mil calorias, a pessoa assusta. Ou seja, criou-se uma nova
medida, em que cada caloria popular equivale a 1.000 calorias [da ciência].”
Cássio Leite Vieira,
editor da revista Ciência Hoje
Ano-luz
É uma medida de
distância, mas que pelo fato de conter “ano” no nome muitos acham que é uma
medida de tempo. Na verdade, “ano-luz” é a distância que a luz percorre em um
ano, mais ou menos 9,5 trilhões de quilômetros. Dizer que “passou um ano-luz”
está errado.
Código genético x Material genético
Chamar o DNA de
código genético é um erro. O correto é falar em material genético. O código são
as bases nitrogenadas, as famosas letras que compõem o DNA: G (guanina), C
(citosina), A (adenina) e T (timina). O código genético é, portanto, parte do
material genético.
Diet x Light
Diet é um alimento
isento de algum nutriente, como glúten, carboidrato, gordura ou proteína. Não
acarreta necessariamente redução calórica, focando dietas específicas, como
para os diabéticos. Já o light deve ter redução mínima de 25% em determinado
nutriente ou calorias, comparado ao mesmo alimento em sua fórmula convencional,
estando mais relacionado a dietas de redução calórica.
Peso x Massa
Na linguagem
científica é um erro considerar os conceitos de peso e massa como sinônimos. O
peso se altera em função do lugar onde um corpo está; a massa, não. Alguém que
pesa 70 kg na Terra (70 Kgf), na Lua, pesará cerca de 11,6 Kgf, mas sua massa
permanecerá 70 kg. Isso porque a Lua tem gravidade bem menor que a Terra.
Fontes: Cássio Leite
Vieira (revista Ciência Hoje) e Wilson da Costa Bueno (Comtexto Comunicação e
Pesquisa).
ECONOMIA
Percentagem x Ponto percentual
“Isso rende confusão
especialmente em matérias sobre PIB, crédito e inflação. No caso do crédito,
por exemplo, é comum ler que o saldo de financiamentos em relação ao PIB
cresceu 1% em um mês, quando na verdade, este número aumentou 1 ponto
percentual (de 48% para 49% do PIB). Parece algo básico, mas na verdade o
próprio relatório do Banco Central induz ao erro ao colocar a legenda ‘em %’ ”.
Renato Carvalho,
editor do DCI
Especulação
Especular é estudar
ou apostar em uma empresa ou fato que vai mudar o rumo das cotações no mercado,
com base em indicadores macroeconômicos ou em números de balanços das empresas.
Ou seja, um jogo limpo. A expressão ganhou um tom pejorativo para designar
aquela “raposa de mercado”, que ganha dinheiro através de informações
privilegiadas ou cargos em empresas, o que é contras as regras, acarretando
multas pela
Comissão de Valores
Imobiliários (CVM).
Lucro contábil x Lucro recorrente
O lucro contábil é
aquele “que vale”, que mostra quanto a empresa efetivamente lucrou em
determinado período. O recorrente mostra um lucro “ajustado”, que não leva em
conta os chamados “eventos extraordinários”, como o pagamento de parcela por
uma aquisição recentemente fechada ou créditos tributários.
Duas vezes maior x Dobro
A questão é puramente
matemática. Dizer, por exemplo, que uma taxa é duas vezes maior que outra não é
o mesmo que dizer que ela é o dobro da outra. Quando um número é o dobro do
outro, ele é uma vez maior.
Fusão x Aquisição
Uma aquisição é a
compra de uma empresa pela outra, sendo que ambas preservam suas identidades
jurídicas, diferentemente do que ocorre na fusão, em que duas ou mais empresas
independentes do ponto de vista jurídico passam a formar uma única empresa em
termos de direitos e obrigações.