Minha lista de blogs
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
os diferentes olhares para o mesmo significante.
Artigo do professor Sírio Possenti, da Unicamp, sobre os diferentes olhares para o mesmo significante.
Mulher com bandeira palestina passa por soldados israelenses. Conceito de "terrorista" na região é manipulado
Sírio Possenti
De Campinas (SP)
Mas podemos, também, ver menos metaforicamente o discurso sociopolítico como um discurso que elabora dicionários, nos quais as fórmulas são construídas como novas entradas ou como novos sentidos. Bernard Gardin, a propósito de uma análise dos discursos produzidos nos anos 1970 no debate sobre o "programa comum" da esquerda, propunha considerar um debate desse tipo como "o estabelecimento de um dicionário". De fato, diz Gardin, trata-se, nesse debate, "para cada grupo: (1) de impor seus próprios significados aos significantes que fazem parte do vocabulário político comum: liberdade, igualdade, democracia, justiça... (esses termos que fazem crer que todos os grupos dizem a mesma coisa) e de combater a mesma tentativa por parte do adversário: recusar seu emprego dessas unidades; (2) de dar a verdadeira significação dos termos típicos do adversário, denunciando os significados ocultos: de impedir, portanto, que esses signos do adversário se instalem na língua; (3) de impor seus próprios signos linguísticos: significante e significado: participação, programa comum... ... Cada grupo político constrói, então, dois dicionários: o seu, que ele quer ver transformado em dicionário da língua, e o do adversário, que ele quer ver desaparecer." A metáfora subsiste na pena de Bonnafous e Tournier (1995: 68) quando escrevem que "o homem no poder brinca permanentemente de dicionário". Esse "jogo" não é de fato um jogo. E raramente é um jogo de soma nula. Um homem no poder, ao falar, carrega com ele no mundo real os outros homens, com as consequências de seus erros e de suas clarividências, de suas mentiras e de suas verdades. A metáfora do dicionário tem a vantagem de sublinhar que a polêmica de que a fórmula é objeto se opera, em larga medida, num nível metadiscursivo, nível ao qual daremos uma atenção especial.
O trecho acima é do livro de Alice Krieg-Planque (A noção de "fórmula" em análise do discurso; quadro teórico e metodológico. São Paulo: Parábola), que Luciana Salgado e eu traduzimos nas férias (!) de verão, há um ano. Tem, a meu ver, uma utilidade enorme, em termos metodológicos, para quem quer fazer análises de discursos, especialmente hoje, com os sistemas de busca, cada vez mais sofisticados - e que eu preciso aprender a usar.
Mas, além da utilidade metodológica, o livro contém teoria, expressa posições, cita outros autores, cujos textos vão, ora mais, ora menos, na mesma direção do da autora. A passagem acima transcrita é exemplar, a meu ver, de uma posição de enorme interesse - e de grande poder heurístico (isto é, que permite gerar conhecimentos) quando se trata da língua, em especial de seu funcionamento ligado ao poder.
Qualquer pessoa pode verificar que os discursos (políticos, mas também outros ) elaboram dicionários, ou seja, definem sentidos para palavras ou expressões. O que é uma economia "saudável", por exemplo, depende da escola a que o economista se filia (sem inflação, sem desemprego, com crescimento, tecnologicamente avançada, não exportadora de commodities etc.). Ou: o que é terrorismo? Em geral, é algum tipo de violência (e o que é violência?) cometida (e o que é cometer?) por um adversário.
Do livro A linguagem do império (de Domenico Losurdo, Rio: Boitempo): "Se o garoto palestino que protesta contra a ocupação jogando pedras é "terrorista", devemos considerar campeão da luta contra o terrorismo o soldado israelense que o mata a tiros? Não se trata de um exemplo imaginário. Uma advogada israelense, empenhada em defender os palestinos, conta sobre um 'menino de dez anos morto perto de um checkpoint à saída de Jerusalém por um soldado contra o qual tinha apenas jogado uma pedra'".
Os exemplos podem ser multiplicados. Jovens que cometem algum desatino (?) são em seguida designados como bandidos ou como desajustados ou violentos. Por que a diferença? Em geral, ela tem a ver com a cor da pele e/ou com a renda familiar.
Podemos ler jornais para ver que tipo de dicionários tentam fazer. E podemos analisar dicionários para descobrir de quais discursos provieram (por que determinada confissão é religião e outra é seita?). Que palavras registram e como as definem? Que palavras (ou flexões) excluem?
Os dicionários são um pouco como os catálogos de plantas ou de animais. Só que, em vez de definir uma planta ou animal como botânico ou zoólogo, o dicionarista às vezes a define como paisagista ou como gourmet...
E o que dizer dos debates sobre presidenta, quando não foram só burrice? Eram parte de uma luta para fazer um pedaço do dicionário do português.
Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso e Língua na Mídia.
terça-feira, 7 de agosto de 2012
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
JOÃO PEREIRA COUTINHO Histórias da vizinhança
| FONTE: FOLHA DE SÃO PAULO.
JOÃO PEREIRA COUTINHO
Histórias da vizinhança
O mundo é paradoxal. Vive aterrorizado com a pedofilia e convive com a sensualização da infância1. A MINHA vizinha desapareceu há seis meses. No primeiromês, estranhei a ausência: ela tinha o hábito de ficar à janela para ver quem passava -um hábito tipicamente lisboeta. Às vezes era eu: dizia "boa tarde", ela respondia com um aceno e pronto. Conversa acabada. No segundo mês, a janela continuava fechada. E no terceiro, e no quarto.Ao quinto, reparei que o correio se acumulava -uma montanha de cartas que não cabiam mais na caixa postal. Considerando a idade, imaginei o inevitável: morreu, fez-se o funeral, eu não estava na cidade. Acertei. Mas só parcialmente. Seis meses depois do desaparecimento, um cheiro estranho começou a empestear as escadarias do edifício. Pensou-se em tudo: cano de esgoto furado, inundação, fuga de gás. Ninguém imaginou que a mulher estava morta em casa, há seis meses. E que não houvefamiliar ou amigo que tenha indagado o seu destino. Foram os bombeiros que removeram o corpo. O senhorio promete agora limpeza profunda. Ainda bem. Porque o cheiro, esse, continua: um cheiro de solidão, abandono e morte. Um outro vizinho, tapando o nariz, cruzou comigo no elevador e disse: "Esse cheiro é um castigo". Nunca escutei palavras tão sábias. 2. Deve a polícia informar o bairro quando existe um pedófilo por perto? O tema tem sido discutido em Portugal e os argumentos a favor são simples e simplórios: se existe alguém com cadastro nesse crime, as famílias têm o direito de saber para protegerem melhor as suas crianças. O pensamento sempre me provocou horrores mil: publicitar o nome de alguém que já cumpriu pena por abuso sexual de menores é uma humilhação cruel e potencialmente perigosa, que só incita ao ódio e à violência. A minha vizinha discorda: conhecer a ficha criminal do bairro inteiro deveria ser "um direito cívico". Depois aponta para as duas filhas -uma com 8 anos, a outra com 11- e conclui: "Você não acha que eu tenho direito de saber?". Olho para as meninas, que brincam na calçada. E então reparo que ambas imitam, no vestuário e no comportamento, as celebridades pop que passam na TV. Uma pose debochada e vulgar que deveria horrorizar os próprios pais. Não horroriza. Depois da conversa sobre os pedófilos, a mãe me informa que a mais nova, com 8 anos, ganhou um concurso qualquer imitando a cantora Shakira. Moral da história? Razão tem o filósofo Anthony O'Hear no ensaio "Plato's Children", que merecia edição no Brasil: o mundo moderno é paradoxal. Vive aterrorizado com a pedofilia. Convive tranquilamente com a sensualização obscena da infância. 3. Sou um incurável hipocondríaco. Citando os clássicos, nada do que é doença me é estranho. Já pensei em cursar medicina e selar a minha sabedoria acumulada com um diploma formal. Mas para quê? As aulas seriam provavelmente redundantes para quem já leu todos os manuais da especialidade, em parte por já ter padecido de todas as doenças conhecidas pelo homem desde o início dos tempos. E, além disso, não é a ausência de um diploma que me impede de exercer a minha arte. Os meus vizinhos, sempre que tombam com uma doença qualquer, batem à porta do dr. Coutinho em busca de cura. Nunca os desiludi. Receito como posso -oralmente- e depois é só vê-los, felizes e aliviados, de volta ao reino dos vivos. Claro que nem todo mundo abençoa o meu labor. Alguns pessimistas dizem que essas brincadeiras podem acabar mal. E citam o caso Michael Jackson, envenenado pelo próprio médico. Curiosamente, não lhes ocorre que o caso Michael Jackson ilustra o meu ponto, e não o deles: os médicos podem matar. A minha ficha está limpa (acho). E, falando no caso Jackson, quem ministra anestésicos para um insone crônico dormir? Se o pobre Michael fosse meu vizinho, eu teria aconselhado um coquetel potente de ansiolíticos que o entregariam aos braços de Morfeu. Por outro lado, existe uma vantagem suplementar em não ser médico, caso exista negligência grave (toc, toc, toc): quem não tem licença para praticar, também não tem licença para perder. Tenho o melhor dos dois mundos: o máximo de liberdade com o mínimo de responsabilidade. E a vizinhança agradece. jpcoutinho@folha.com.br AMANHÃ NA ILUSTRADA: |
LUIZ FELIPE PONDÉ Ideologia de privada
fonte: Folha de São Paulo
Quando eu morava num kibutz em Israel nos anos 80, num dos banheiros masculinos, estava escrito na porta, "fighting for peace is like fucking for virginity"(lutar pela paz é como trepar pela virgindade).
Gays sempre deixaram inscrições nas portas e paredes dos banheiros masculinos, afirmando seus desejos e dotes físicos. Quanto aos femininos, sempre foram objeto de mistério e desejo, afinal, ver mulheres sem roupa sempre foi um sonho de todo cara. Além do fato óbvio de que os órgãos excretores são os mesmos envolvidos no ato sexual. Claro, não apenas eles.
Qualquer iniciado em Freud vê algo de obviamente sexual na nossa relação com banheiros. Fantasias sexuais sempre encontraram nos banheiros um santuário para suas taras. E mais: formas diversas de perversões sexuais envolvendo funções excretoras sempre povoaram o universo das fantasias sexuais mais "heavy".
Talvez alguém ache que eu deva pedir perdão por usar uma expressão como "perversões sexuais" num mundo como o nosso, no qual um sujeito pode gostar de espancar e ser espancado, mas exige seu direito de cidadania "sado-maso". Mas não vou pedir perdão não, tá?
Como já disse antes, hoje em dia todo mundo quer ser "legal" e ninguém quer ser pecador. O cara gosta de transar com cães de grande porte, mas recicla lixo, anda de bike na praça Pan-Americana e come rúcula, e por isso ele é o que chamo de "sado-maso" sustentável, ou seja, "sado-maso" de boutique. Sade vomitaria nele, mas sem nenhum tesão.
Até pouco tempo atrás, isso era tudo que se podia imaginar em termos de metafísica de banheiro. Algo na fronteira do "trash" e do mistério. Imagine quantos meninos já sonharam em se esconder no banheiro das meninas para vê-las sem roupa. Uma "cheerleader" no banheiro é um clássico sonho de consumo.
Mas hoje, metafísica de banheiro é coisa "séria". A cidadania passa pela latrina: rosa ou azul? Logo vão inventar a ideia de que "direitos sanitários" não são apenas o direito a saneamento básico (rede de esgoto, boca de lobo, privadas e similares), mas o direito de invadir o banheiro alheio num movimento, talvez inspirado no MST (as Farc brasileiras), que podemos denominar MSB, "os sem-banheiro".
Há algum tempo que ouço frases (que acho bem bregas, aliás) como "na Europa não existe mais banheiro de homem e mulher". Toda pessoa que faz esse tipo de comparação entre Brasil e "o Primeiro Mundo" revela sua alma de vira-lata metido a chique, um dos piores tipos na galeria de comportamentos esteticamente ridículos. Viajo muito, para minha infelicidade, e continuo vendo banheiros divididos por sexo. Sei também que está na moda falar "gêneros" (sexo é construção social), mas eu que não acredito nisso, continuo falando "sexos".
Normalmente lá, quando não há separação, é porque você está num lugar "chiquinho-cabeça" (antros de mal-educados ideologicamente motivados) ou por miséria de banheiro mesmo. Aliás, quem diz que a Europa é Primeiro Mundo em banheiro é quem não conhece a Europa mesmo, porque lá muitos banheiros são horrorosamente imundos, quando não apenas uma fossa num cubículo.
Quem mais sofre com a invasão ideológica do banheiro alheio são as mulheres, que normalmente são bem preocupadas com privacidade neste assunto, a ponto de muitas vezes, desde pequenas, desenvolverem patologias intestinais ou urinárias devido ao hábito de "se reprimirem" em situações de privação de privacidade sanitária.
Proponho fiscais nos banheiros femininos para assegurarem que os invasores farão xixi sentados para não sujarem tudo.
Vivemos em tempos ridículos (tempos pautados por um acúmulo de conforto e por isso todo mundo fica meio besta): daqui a pouco vão criar editais especiais para fomento cultural e "científico" (o povo da teoria de gênero aplicada à privadas) a favor do MSB, "os sem-banheiro".
E o incrível é que ninguém diz de uma vez que esse papo de crítica de gênero aplicada a privadas é papo furado de quem no fundo quer justificar ideologicamente seus pequeno sintomas, e não respeita a privacidade alheia, principalmente das mulheres.
ponde.folha@uol.com.br
AMBIGUIDADE. SÍRIO POSSENTI.
Carta na Escola
Sírio Possenti
A maioria dos que falam de língua normativamente detestam a ambiguidade. A tradição diz que é um vício de linguagem. A ser evitado, portanto. Um exemplo típico é “Pedro disse a Paulo que ele está doente”. Já que “ele” pode referir-se tanto Pedro quanto Paulo, a sequência é viciada, dizem eles.
Mas evitar ambiguidades não é uma questão da sintaxe ou do ensino de gramática. A tarefa está na alçada dos gêneros. Eles é que podem ou não podem ser ambíguos, dada sua função social. Se o texto for uma receita ou uma bula, é melhor que seja claro e que cada parte tenha um só sentido. O mesmo se pode esperar de um artigo científico.
No fundo, a ideologia da clareza se baseia na tese – falsa – de que a única função da língua é expressar (comunicar?) o conhecimento. Supostamente, o jornalismo deve seguir esta regra de perto, porque é informação.
Mas por que um verso deve ser unívoco? E como “fazer” uma piada sem ambiguidades? Um comediante diz que fala muito de si nos seus shows, e que está chateado porque seus colegas não fazem o mesmo. A plateia ri. Como acharia graça se o comediante evitasse este texto ambíguo, que tanto pode significar que seus colegas não falam dele quanto que não falam de si mesmos? Não haveria humor. Ninguém iria aos bares em que “comediantes em pé” recitam seus textos.
Claro que a reclamação geral não se deve à rejeição dos textos humorísticos. Os que reclamam da ambiguidade nem pensam nisso.
Muitas reclamações recentes se devem a manchetes como “Um caminhão para o trânsito”. Eles reclamam porque não ficam sabendo, sem ler toda a notícia, se o caminhão é destinado ao trânsito da cidade ou se fez com que o trânsito parasse. Sim, eles reclamam, não perdoam o acordo ortográfico por ter eliminado o acento da forma verbal “para”.
O que não entendo é por que eles querem ler só a manchete. Além disso, quando as manchetes não têm esse tipo de “problema”, são claras? Há muitas maneiras de a manchete ser obscura. A saída óbvia, neste e em outros casos, é ler a matéria. Que, muitas vezes, de fato, só é clara para quem lê sobre o assunto há meses ou mesmo anos… É que o sentido de uma frase (manchete ou não), e mesmo de muitos textos, deriva de muitos outros textos. Sem eles, há muito mais “obscuridades” do que pode imaginar nossa vã filosofia.
FERREIRA GULLAR :Toda arte é atual
Peço que o leitor me desculpe se ando escrevendo demais sobre artes plásticas. É que, ligado a elas como sou, de vez em quando me pego refletindo sobre o assunto. Foi o que ocorreu há pouco, quando visitei a exposição de Eliseu Visconti, no Museu Nacional de Belas Artes.
Estava apenas esperando uma oportunidade para ir vê-la, desde que recebi o convite para o vernissage: ele trazia a reprodução de um retrato pintado pelo artista, que sempre me fascina quando o vejo. Assim que, logo que pude, fui ao
MNBA e não me arrependi. Pelo contrário, vi confirmadaminha convicção de que Visconti, embora nascido na Itália, é um dos maiores pintores brasileiros.
A exposição reuniu obras do acervo do museu, da Pinacoteca do Estado de São Paulo e de coleções particulares. Embora esteja longe de ser completa, nos deu uma visão bastante ampla da obra do artista em suas diferentes fases. Nas pinturas mais antigas, do final do século 19, ele se mostra um pintor realista, que é a fase menos interessante de sua obra.
Não por culpa sua, pois já ali se mostra um excelente pintor, pela composição, a qualidade do desenho e domínio da linguagem pictórica propriamente dita. O defeito está no caráter realista das obras. Pode ser apenas, no que me diz respeito, uma questão de gosto, mas o que ocorre é que a preocupação com a cópia fiel das figuras torna a pintura menos fascinante, ao trocar a imaginação criativa e poética pela fidelidade ao real.
A verdade é que há muitos tipos de realismo pictórico e que, também aí, pesam certas qualidades do artista. Velásquez, por exemplo, era um barroco realista e, em algumas obras, não alcançou a transcendência poética. Não é o caso, obviamente, da obra-prima "As Meninas", porque, nesse quadro, apesar do realismo das figuras, a relação espaço-tempo que ele estabeleceu ali supera a imitação realista: é que ele nos mostra, a um só tempo, as figuras que pintara, como se fossem os modelos do que ainda estaria pintando na tela, cujo avesso nos é mostrado ali.
Mas o realismo não é chato apenas nas artes plásticas; ele o é também na literatura. Pelo menos para mim, pois acho que não se faz arte para imitar a vida, e sim para inventá-la. A realidade é pouca.
Por isso mesmo, a pintura de Eliseu Visconti ganha qualidade à medida em que abandona o procedimento acadêmico -iminentemente imitativo- para abrir-se ao impressionismo, que em seus quadros adquire uma poética própria. Inicialmente, há uma fase de passagem do estilo realista, que busca a imitação da realidade, a uma linguagem pré-impressionista, em que, aos poucos, um uso novo da cor e da luz se manifesta.
Como se sabe, o impressionismo nasce quando o pintor deixa de pintar dentro de casa -ou no ateliê- para pintar "à pleine aire", ou seja, à luz do dia. A relação de sombra e luz é substituída pela cor irradiante, nascida da vibração da luz solar sobre a superfície das coisas. Isso durante etapa desse movimento pictórico, porque, no final, algumas das obras de Monet (como "Nenúfares") já estão impregnadas da subjetividade simbolista.
Pois bem, a esse simbolismo se vinculará a pintura de Visconti na etapa áurea de sua obra, que se estenderá até 1944, ano de sua morte. Nesta última fase, o pontilhismo impressionista se muda em pinceladas mais amplas. Visconti é quem faz a transição, na pintura brasileira, do academicismo do final do século 19 ao modernismo, que nasce, historicamente, com Anita Malfatti na exposição que fez em 1919, em São Paulo.
Não quero terminar este registro sem mencionar uma observação que fiz, alguns anos atrás, quando reuniram obras de pintores brasileiros do modernismo e da etapa imediatamente anterior. Ali estava uma obra de Eliseu Visconti e o conhecido autorretrato de Tarsila do Amaral. Embora seja eu fã de nossa pintora modernista, não pude deixar de reconhecer a diferença de qualidade artística entre as duas obras. O quadro de Visconti ali exposto, comparado ao de Tarsila, era indiscutivelmente melhor.
Não se trata aqui de diminuir a importância de Tarsila que, naquele momento, abria um caminho novo para nossa pintura. Mas não se deve confundir o papel histórico com valor estético. Como disse Picasso, toda arte é atual.
AMANHÃ NA ILUSTRADA:Luiz Felipe Ponde
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/57282-toda-arte-e-atual.shtml
Questões de Interpretação. Reforma Previdência social
EDITORIAIS
editoriais@uol.com.br
Idade da razão
Congresso precisa aceitar necessidade de mudar regras parapensões por morte, item fundamental para equilibrar as contas da Previdência
Com boa vontade, é possível notar um amadurecimento do debate em torno da reforma do regime brasileiro de Previdência Social.Ao menos a administração petista dá sinais de que parece superar a longa fase de negação do problema e está mais perto de formatar uma agenda para enfrentar a deterioração das contas do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). Não estão em pauta medidas juridicamente controversas nem de impacto sobre o Orçamento no curto prazo, mas decisões a serem tomadas logo para atenuar, no futuro, a expansão da despesa com a Previdência. Hoje, ela já é da ordem de 10% do PIB (incluindo o setor público), comparável à de países mais ricos e com mais idosos. No caso dos atuais segurados, o fundamental para equilibrar as contas é desencorajar as aposentadorias precoces admitidas pela legislação. A alternativa à mão é a fórmula batizada de 85/95, em que os números se referem à soma da idade com o tempo de contribuição a ser exigida, respectivamente, de mulheres e homens. A regra, fácil de entender, substituiria o fator previdenciário. Este mecanismo, mais complexo e impopular, foi introduzido na década de 1990 para reduzir o valor do benefício dos que se aposentam mais cedo -e se tornou alvo de crescente ofensiva política. Especialistas apontam que a fórmula 85/95 tende a ser mais permissiva e propensa a deficit que o fator previdenciário. Mas o inconveniente pode ser contornado com o ajuste das idades de referência. Além disso, caberia impor aos futuros participantes do mercado de trabalho, por exemplo, uma idade mínima para aaposentadoria, como nos regimes previdenciários da maioria dos países. Trabalha-se com 60 anos para mulheres e 65 para homens, números que serão objeto de negociação no Congresso. Atualmente, há quem se aposente antes dos 50, com base no tempo de contribuição (30 e 35 anos, respectivamente, para obter o benefício integral). Outro item da agenda, disciplinar as pensões por morte, reúne melhores condições para engendrar uma ação mais imediata, talvez, dadas a dimensão e a obviedade das anomalias por corrigir. Viúvos e órfãos custaram R$ 100 bilhões ao erário no ano passado (cerca de 20% do gasto previdenciário total), dos quais R$ 60 bilhões na carteira do INSS e o restante no regime dos servidores públicos. Trata-se de um desembolso dos mais liberais no mundo, resultado de uma legislação extravagante. Não leva em conta, por exemplo, o período de contribuição pelo segurado, a idade do beneficiário ou sua capacidade de sustentar-se. É improvável que o tema seja tratado em período eleitoral. Um Congresso responsável, porém, não postergaria sua contribuição para equacionar ameaça tão grave.http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/58136-idade-da-razao.shtml |
Assinar:
Comentários (Atom)